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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Essa mulher

(Dedicado a William Silveira Castro e Antonia Carlin)

Tinha dias que ela ia me ver. Não avisava, chegava como se caminhasse na ponta dos pés.
Me encontrava em qualquer canto da casa e, sem dizer uma palavra, me beijava.
Um daqueles que engole a alma da gente. Daqueles que diz sem nada dizer. Um beijo.
Me beijava atrás da porta, do armário e da estante de livros.
Dentro do banheiro, nos corredores vazios e nos elevadores.
Escondidinho, me beijava.

Às vezes ela telefonava  para perguntar sobre como foi o meu dia e outras para dizer como foi o dela.  Quando o assunto terminava, até o silêncio era bom. Sobrava o riso. 
Era uma otima ouvinte e oradora. Dona de uma fala que fazia pensar e escuta que confortava. Atenciosa e divertida, cuidadosa com ela e com quem estava ao redor. Dedicada em tudo que se voluntariava, até nas obrigações mais chatas. Autêntica e sedutora. Tudo junto. Toda ela.
Era ela.

De vez em quando me levava ao cinema. No caminho, parava para me beijar em frente ao cemitério. Fazia convite para almoçarmos juntos, preparava uma comida que eu nunca disse que adorava. Movia a TV da sala para o quarto somente para ver filmes com as pernas agarradas às minhas.
Cheia de tatos e manhas.

Tinha dias que me acordava para dizer que estava encantada e acho que nem sabia que quem de fato estava era eu.
A fome que sentia era parte do feitiço. Uma gulodice gostosa e sem pecados.
Essa mulher me comia na estrada, no banheiro feminino, no chão do ap, no sofá da sala, na cama e no carro. E ainda me chamava de 'doido'... veja! Ela me amava com a força do sentimento de quem externa toda tristeza e beleza do mundo. Um amor cheio e pulsante.
Inteiro.

Às vezes eu ficava bisbilhotando como ela dormia. Toda largada na cama, parecia que estava aprendendo voar. O corpo cheirava amêndoa doce e a  mão ficava quase sempre estendida sob o peito. Peito cheio de vida e de ideias criativas. Pleno de disposição e vontades.
Cheio de tudo!

Tinha dias... não, não! Todos os dias, ela vinha com uma graça. Uma piada, uma sacada do trecho de um livro, de um filme, de uma tirinha. Todo dia uma gargalhada provocada. Riamos juntos. Eu ficava com cara de bobo, pensando como alguém tão extrovertida cheirava tanto à timidez superada. Cheiro que a tornava ainda mais interessante.

De vez em quando me emprestava dinheiro, deixava bilhetinhos em alemão em meus livros, fazia versos, ensaiava  musica no violão, penteava meus cabelos com a ponta dos dedos, via peça de teatro sozinha, ficava chateada quando eu ria sozinho sem compartilhar a graça, entrava de surpresa no chuveiro, me amava e, de muitos jeitos, me mandava para o inferno.
Eu ia. Todo feliz.

Essa mulher que tanto eu seduzi, que tanto me seduziu, que tanto me quis e eu quis igualzinho.
Essa  mulher morta ainda vive em mim.
Como se fosse ontem.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O Palhaço

A luz se acende no meio do picadeiro. Uma cortina se abre, e um palhaço salta em frente ao público. Nada faz. Fica ali parado como se se tratasse de um boneco de brinquedo. O silêncio do público é de expectativa. De onde virá a graça naquilo tudo? Mas hoje não haverá graça nenhuma, nem humor, nem estripulias, pois o palhaço quebrou. Todos os olhares concentrados nele e ele a olhar para o vazio, pensando no que fará a seguir. Talvez não faça nada, apenas dê um sorriso, falso, talvez diga buh! para fazer as crianças rirem assustadas, talvez mais um pulo e um adeus. Resolve por uma gargalhada. Todo mundo ri. Ele olha a todos calado, sério, tristíssimo palhaço, como naquele poema do poeta da antiga Desterro, Cruz e Souza. Novo silêncio e outra gargalhada, esta cômica, de acento hilariante. O público ri mais ainda e todos riem juntos, o palhaço que quebrou também. Mas o público quer novidades, quer imaginar coisas novas, porque imaginar sozinho não pode. O palhaço, calado, pensa. Uma criança ri sozinha tentando imitar os adultos. Quer ser aceita, como todos ali presentes, com exceção do palhaço. De repente um grito. O palhaço gritou. Gritou alto, um grito lancinante, de fera abatida, de monstro que se agita. O palhaço é vaiado, muitos se assustam, velhos, adultos, crianças. Mas ele continua no centro do picadeiro. O dono do circo sem compreender nada, nem as trapezistas, os equilibristas, os gospe-fogo e os malabares. Terá enlouquecido o palhacinho do circo? Terá cansado da vida de palhaço? Abruptamente dá um salto pra frente, e outro grito, ainda maior, como quem se aquece para a grande peça. O salto, um grito e outra gargalhada, a gargalhada mais triste já vista, carregada de deboche, de zombaria. Ninguém riu. Deu pena do palhaço, “olha”, alguém disse, “vejam, ele está com o coração partido”. O rosto cheio de lágrimas, o palhaço trepado nos limites do picadeiro encarava o público. A fantasia não lhe cabe naquele dia, talvez nunca mais lhe caiba. “É, sim, vejam, ele chora!” E, como que por contágio, repentinamente, as pessoas também começam a chorar, até mesmo os homens. Choram sem saber o que está havendo, o que vai acontecer. Choram por compartilharem a mesma fantasia, todos os dias, colocar e tirar a maquiagem, a roupa de palhaços, os sapatos compridos, os truques para fazer rir. Choram um choro que vai se avolumando, tornando-se caudaloso, como um rio de sofrimento e dificuldades. Choram as recordações, as saudades, as injustiças, a fome e o medo. Ele conseguiu o efeito. E o palhaço vai se despedindo num aceno, faz uma pirueta em pleno ar e, ainda limpando as lágrimas, houve os aplausos que não param, e volta ao picadeiro para um último grito, e todos gritam juntos, e o mundo se transforma, ao menos naquele momento, naquela noite. Toda a lógica do mundo quebrada, não pelo humor, mas pela dor. O palhaço é um sucesso, e é a primeira noite que não se lamenta por isso. Não sai feliz, nem triste, nem palhaço. Sai humano.


(Alexandre Magno da Silva)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Nas carreiras

Jim faz aniversário no mês de dezembro e desde de agosto, eu  planejava  fazer uma festinha para ele. Uma coisa assim, intima, entre amigos e familiares, nada muito elaborado: petiscar coisinhas, tomar um vinho, uma cerveja, ouvir musica e rir muito. Simples e alegre, como ele. 

Esse ano,  ele passou todos os feriados de dezembro em casa. Sabendo disso e, que eu também estaria de folga do trabalho e da escola nesse período,  ele propôs viajarmos para San Antonio, uma cidadezinha aqui nas redondezas. Como nos divertimos muito sempre que vamos, achei que poderia adiar a festinha dele para o próximo ano. Trato feito! 


Um dia antes do aniversário, já estávamos com os paninhos de bunda arrumados e muita musica legal para ouvir na estrada. Daiii...  um telefonema mudou tudo. Surpresas boas são sempre bem vindas. Então tudo bem viajarmos um outro dia  já que estaríamos duas semanas em casa. E junto com a surpresa boa uma proposta indecente de minha sogra: "Já que vocês não vão viajar, que tal fazermos aquela surpresa que você pensou em preparar para ele?"


Mas como assim fazer uma festinha no último minuto? E os meus quitutes, confetes,  piñatas e balangandãs?
Nem preciso dizer que aqui nos EUA,  é de lei muitas festinhas cederem ao 'compre tudo pronto'. Se eu tenho algo contra? Nadica de nada. Ao contrário. Mas para esse momento, eu idealizei algo diferente do que costumo ver por aqui, algo  muito parecido ao que nós, brasileiros, ainda fazemos.


Eu queria dedicar meu tempo preparando coisas, por mais simples que fosse a minha proposta. Queria escolher as musicas favoritas, os petiscos, as bebidas, tudo. Com cuidado, com carinho, sem pressa para que tudo fosse curtido, inclusive por mim.
Dai que misturamos as duas ideias. Compramos umas coisas prontas e eu coloquei a mão na massa em outras. La fui eu picar mula para o mercado, improvisar tudo que eu tinha pensado e resumir tudo em uma madrugada.

Mas e cadê o pigmento para o moranguinho? Ah, não tem drama! Se eu colocar um pouquinho de pó artificial vermelho para suco, deve funcionar igualzinho. E o chocolate granulado para o brigadeiro? Corre aqui, corre acula, não acha. Ah, se eu decorar com esse trequinho azul vai ficar ate engraçadinho. E assim fui improvisando tudo.
La pelas tantas, ainda estava fazendo coxinha, esfiha, beijinho (vermelho) - eu falei pra todo mundo que  era red kiss e foi sucesso, haha - spring rolls, delícia de abacaxi, bobó de camarão no chips, brigadeiro e isso e aquilo quando...

fui interrompida : "Porque você esta fazendo tudo isso? É tarde, vem dormir." Com a cara mais cínica do mundo: "Eu não sei, de repente podemos receber algum amigo ou  famíliar, e' bom ter docinhos, essas coisas na geladeira, todo mundo gosta." Com uma cara não muito crente e ainda mais cínica que a minha: "Humm, eu sei." 
Nessa hora, senti a tristeza de Cebolinha ao ver seu plano infalível arruinado por Sansão e pensei: "Porra, estlaguei tudo, ele esta desconfiado agora." Assim mesmo continuei. Enrola o salgadinho, coloca no forno, enrola os docinhos, arruma nos copinhos de papel, faz a calda de abacaxi, mexe o bobó... 


Uma das caracteristicas que eu mais aprecio em Jim  é a de ele não ter perdido a capacidade de se encantar com o trivial, de não ter abandonado o pedaço lúdico. Aprecio a  espontaneidade como ele se comunica brincando,  como experimenta o que gosta com plenitude, se entregando sem preocupações com rótulos e estigmas.  Se ele quer pular, pula, se quer brincar, brinca, se quer gargalhar, gargalha. Sem controles remotos. E por ele não ter perdido essa criança, essa coisa bonita...


eu gostaria de ter preparado algo que representasse isso com muitos confetes, pirulitos, algodão doce, trampolim, tudo com a energia dele. Mas acho que ele deu boas gargalhadas  com as plaquinhas no palito de churrasco estampadas com os simbolos do time que ele curte e com a inicial do nome dele, os pratos de papel com as figuras do Darth Vadar, Yoda e toda cia do Star Wars, a metade da coleção  de brinquedos  arrumados em cima da lareira, os balões soprados na agonia dentro do banheiro e tudo mais que fizemos para a alegria do dia.

Eu gostaria que todos os amigos de Jim estivessem presentes. São poucos os que vivem aqui no Texas e por conta de termos decidido festejar no ultimo minuto, não houve tempo de convidar a todos, alguns estavam viajando, outros trabalhando mas os que vieram, fizeram a festa com a gente até as 2:00 da madruga. 
Se eu não tivesse ouvido a sogra, que tão alegremente saiu comigo para comprar a torta e  outros trequinhos, eu teria adiado a festinha dele. Coisa boa ter o amor de duas mulheres. rs


E todo mundo comeu, e todo mundo bebeu, e todo mundo papeou, cantou e brincou na festinha simples e cheia de bons sentimentos. Sentimentos maiores que a festa, com certeza. 


                Desejo que James continue sorrindo muito. Todos os dias.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Ela disse que não sabe amar


"A morena dos olhos infinitos
Que na penumbra se fazem luz
Entre risos, xingos, muita treita
E uma voz bonita que tanto seduz
Me falou da verdade – descoberta
Revelada em meio a tanta letra
Que confunde a sua cabeça aberta
Falou como se fosse coisa normal
Como se a vida fosse coisa certa
E a existência, manchete de jornal"