quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

A certeza

Duas Veras

Duas Taylors 

A minha certeza: 

Deus.


terça-feira, 29 de outubro de 2024

Que nem Haikai

 

                The Red Bicycle by Henry Gordon 


Sonhei com um Conto 

Mas foi breve como Haikai

Foi-se o canto 


Tanto, tanto, tanto 

Ficou o encanto 

No canto 


Franzino em meio ao pranto 

Vidas escorrem 

Mas certo é o ponto. 




(…) “foi algo passageiro, superficial.”


sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Futuros Amantes


Eu já gostei muito dessa música, bem verdade. A letra, melodia e toda a semântica dessa composição me encantaram por quase duas décadas. Hoje, norteada por outros princípios, ela já não me apraz como um dia fez. Mas é verdade que a ideia de um amor que não pôde ser vivido possa ser aproveitado algum dia por outro casal, mesmo depois de milênios, me pareça criativa. 

Foi essa a explicação que o compositor Chico Buarque deu quando perguntado de onde saiu a inspiração para a canção Futuros Amantes: 

“Eu tava mexendo no violão, começando a fazer a melodia, e a primeira imagem que apareceu foi exatamente esta: uma cidade submersa, isolada de tudo. Porque, cantarolando, parecia que a música queria dizer isso. Eu tinha que ir atrás da explicação dessa cidade submersa. Aí eu coloquei os escafandristas, e surgiu a história de um amor adiado, um amor que fica para sempre. Essa idéia do amor como algo que pode ser aproveitado mais tarde, que não se desperdiça. Passa-se o tempo, passam-se milênios, e aquele amor ficará até debaixo d’água. Um amor que vai ser usado por outras pessoas, um amor que não foi utilizado porque não foi correspondido, e então ele fica ímpar, pairando… Esperando que alguém o apanhe e complete a sua função de amor.”

Eis: 🎵 

Futuros Amantes

Chico Buarque


Não se afobe, não

Que nada é pra já

O amor não tem pressa

Ele pode esperar em silêncio

Num fundo de armário

Na posta-restante

Milênios, milênios no ar


E quem sabe, então

O Rio será

Alguma cidade submersa

Os escafandristas virão

Explorar sua casa

Seu quarto, suas coisas

Sua alma, desvãos


Sábios em vão

Tentarão decifrar

O eco de antigas palavras

Fragmentos de cartas, poemas

Mentiras, retratos

Vestígios de estranha civilização


Não se afobe, não

Que nada é pra já

Amores serão sempre amáveis

Futuros amantes, quiçá

Se amarão sem saber

Com o amor que eu um dia

Deixei pra você


Não se afobe, não

Que nada é pra já

Amores serão sempre amáveis

Futuros amantes, quiçá

Se amarão sem saber

Com o amor que eu um dia

Deixei pra você


sexta-feira, 3 de maio de 2024

Águas


Duas Américas 

Dois Sul’s inundados

Sofrimento e agonia 

Vidas encharcadas 

Um só Deus

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Le temps


Faz algum tempo que cheguei 

Tanto que passou

que passei 

Tanto pensei 


                                 Corri contra o tempo

E entre um ponteiro e outro 

perdi


        caí


sorri

penei 

ganhei

me ergui 


Há algum tempo, o tempo passou por mim 

Me contou coisas

Desvendou outras 

Me ensinou muitas 

Desaprendi tantas 


Há tempo que cheguei 

Por muito, estive 

parti 

Já não estou 

O tempo moldou

Pouco restou 

Quase tudo mudou 

morri

E somente agora 


eu sou. 


Obrigada Jesus!


Ps. Um “clic” do homem que me amava ontem e me ama hoje.

segunda-feira, 6 de junho de 2022

entreLinhas

O pescador acorda antes do sol e, com o corpo cansado e alma disposta, apanha  seu saco de pescaria e segue para o caminho do mar. Com passos firmes e despretensiosos, assiste ao céu anunciar a transição das estrelas para os primeiros raios da manhã. 

E então, uma aquarela surge em meio ao nevoeiro matinal: tons de lilás começam a escorrer no azul noturno e, de repente, rabiscos rosados vão cortando o horizonte. Um cenário cheio de imagens que só Caymmi sabe cantar. 


Depois de muito caminhar, ele chega em seu lugar sagrado. Ouve gaivotas e a dança da corrente marinha ba

                    ten

                          do nas pedras. 

Escuta grilos e vento derrubando folhas. 

Há cheiro de maresia se entrosando com algumas ervas daninhas. 

Há cantos de bem-🎼 te- vis e papa-🎼capins. 

Gaivotas desfilando sob o mar. 

Encantos de sereias ecoando na maré cheia. 

Um verdadeiro ensaio orquestral. 

Mas o que ouve o pescador além das vozes que o cerca? 


Atento, lança sua vara ao mar. 

Paciente, ele espera. 

Entre suspiros e arremessos, há pausas silenciosas daquelas que pertencem somente  aos que se dedicam a arte de saber esperar. 

Mas há também barulhos internos e alguns monólogos que, quem sabe, o mar compreenda.

O objetivo é o peixe ou a pescaria? 


De repente, ele vê um borbulho na superfície espelhada n’água, a vara começa a inclinar, o olhar está atento e as mãos ágeis estão prontas para o primeiro fisgar da manhã. 

O que agarrou o seu anzol?


O pescador posiciona o corpo e manobra a vara com rapidez. Algo parece ter fisgado a sua isca. Uma luta se inicia. Ele inclina o corpo para trás e o que quer que tenha agarrado o seu anzol, reluta. Quem sabe o maior de todos os peixes que ele tenha pescado. Talvez seja essa a maior vaidade do pescador: pescar  o maior ou ainda, o mais raro peixe do oceano. 


A luta sessa e, cuidadosamente, ele se aproxima da superfície. Lentamente, a maré se acalma e o pescador olha fixamente para o mar e se depara com algo grandioso:


A própria imagem refletida na superfície da água parada. 


O sal do mar é o mesmo que escorre em seu rosto, pescador? 

Qual bússola te guia quando perdes a noção de espaço? 

Para onde o seu olhar cansado caminha  quando os céus já não te explicam os mistérios do tempo? 

Em que porto você ancora a sua alma ao final de cada dia? 


Uma criatura cintilante de cauda gigantesca avermelhada e nadadeiras de cor púrpura, salta sob os olhos do pescador rasgando o mar entre os raios de sol. Então, a sua imagem espelhada se fragmenta entre a maré. Surpreso, ele começa a vislumbrar o show diante de seus olhos: 

Uma espécie rara saltando de dentro de sua alma. 

 

Na moringa, leva pra casa o resultado de sua pescaria: perguntas, recordações, sonhos, um tanto de dores, amores naufragados, a inalcançável busca do homem pelo menino e uma certeza: 


o gosto da vida não está nos resultados mas na preparação. 


(Junho, 2022)




Dedico ao meu amigo Matheus. O único pescador que conheço.