quarta-feira, 15 de junho de 2022

Le temps


Faz algum tempo que cheguei 

Tanto que passou

que passei 

Tanto pensei 


                                 Corri contra o tempo

E entre um ponteiro e outro 

perdi


        caí


sorri

penei 

ganhei

me ergui 


Há algum tempo, o tempo passou por mim 

Me contou coisas

Desvendou outras 

Me ensinou muitas 

Desaprendi tantas 


Há tempo que cheguei 

Por muito, estive 

parti 

Já não estou 

O tempo moldou

Pouco restou 

Quase tudo mudou 

morri

E somente agora 


eu sou. 


Obrigada Jesus!


Ps. Um “clic” do homem que me amava ontem e me ama hoje.

segunda-feira, 6 de junho de 2022

entreLinhas

O pescador acorda antes do sol e, com o corpo cansado e alma disposta, apanha  seu saco de pescaria e segue para o caminho do mar. Com passos firmes e despretensiosos, assiste ao céu anunciar a transição das estrelas para os primeiros raios da manhã. 

E então, uma aquarela surge em meio ao nevoeiro matinal: tons de lilás começam a escorrer no azul noturno e, de repente, rabiscos rosados vão cortando o horizonte. Um cenário cheio de imagens que só Caymmi sabe cantar. 


Depois de muito caminhar, ele chega em seu lugar sagrado. Ouve gaivotas e a dança da corrente marinha ba

                    ten

                          do nas pedras. 

Escuta grilos e vento derrubando folhas. 

Há cheiro de maresia se entrosando com algumas ervas daninhas. 

Há cantos de bem-🎼 te- vis e papa-🎼capins. 

Gaivotas desfilando sob o mar. 

Encantos de sereias ecoando na maré cheia. 

Um verdadeiro ensaio orquestral. 

Mas o que ouve o pescador além das vozes que o cerca? 


Atento, lança sua vara ao mar. 

Paciente, ele espera. 

Entre suspiros e arremessos, há pausas silenciosas daquelas que pertencem somente  aos que se dedicam a arte de saber esperar. 

Mas há também barulhos internos e alguns monólogos que, quem sabe, o mar compreenda.

O objetivo é o peixe ou a pescaria? 


De repente, ele vê um borbulho na superfície espelhada n’água, a vara começa a inclinar, o olhar está atento e as mãos ágeis estão prontas para o primeiro fisgar da manhã. 

O que agarrou o seu anzol?


O pescador posiciona o corpo e manobra a vara com rapidez. Algo parece ter fisgado a sua isca. Uma luta se inicia. Ele inclina o corpo para trás e o que quer que tenha agarrado o seu anzol, reluta. Quem sabe o maior de todos os peixes que ele tenha pescado. Talvez seja essa a maior vaidade do pescador: pescar  o maior ou ainda, o mais raro peixe do oceano. 


A luta sessa e, cuidadosamente, ele se aproxima da superfície. Lentamente, a maré se acalma e o pescador olha fixamente para o mar e se depara com algo grandioso:


A própria imagem refletida na superfície da água parada. 


O sal do mar é o mesmo que escorre em seu rosto, pescador? 

Qual bússola te guia quando perdes a noção de espaço? 

Para onde o seu olhar cansado caminha  quando os céus já não te explicam os mistérios do tempo? 

Em que porto você ancora a sua alma ao final de cada dia? 


Uma criatura cintilante de cauda gigantesca avermelhada e nadadeiras de cor púrpura, salta sob os olhos do pescador rasgando o mar entre os raios de sol. Então, a sua imagem espelhada se fragmenta entre a maré. Surpreso, ele começa a vislumbrar o show diante de seus olhos: 

Uma espécie rara saltando de dentro de sua alma. 

 

Na moringa, leva pra casa o resultado de sua pescaria: perguntas, recordações, sonhos, um tanto de dores, amores naufragados, a inalcançável busca do homem pelo menino e uma certeza: 


o gosto da vida não está nos resultados mas na preparação. 


(Junho, 2022)




Dedico ao meu amigo Matheus. O único pescador que conheço. 


sexta-feira, 11 de março de 2022

Políticos de Estimação

 Precisamos reavaliar o que nos norteia como indivíduos em sociedade. Estamos defendendo ideias ou pessoas? 
Precisamos deixar de ter políticos de estimação. Não é o governo federal quem vai resolver nossos problemas, não é o Senado e nem a Câmara e nem o sindicato ou prefeitos. 
A luta é nossa e ela é diária. Essa luta começa em cada ação, naquilo que fazemos ou deixamos de fazer. A luta começa nas palavras que proferimos. Começa com a gente arrumando a nossa bagunça em casa antes de querer organizar o mundo como bem disse Jordan Peterson em seu livro “12 Regras para a Vida. Um Antídoto para o Caos.” Começa em como você pode ser útil em sua comunidade. Mas não vale reconhecer, é preciso fazer. 

É preciso reclamar menos, apontar menos para o outro e acionar suas melhores habilidades para melhorar algo numa escala menor aí onde você mora. 
Doe 30 minutos extras em seu trabalho, reúna seus vizinhos para uma discussão sobre coisas que não estão bem em seu bairro ou na escola de seu filho. Seja mais solidária com os seus. Ninguém consegue ser genuinamente solidário lá fora se não consegue ser consigo e com as pessoas que o rodeia. 
Se chegamos até aqui e não entendemos ainda que o governo somos nós e que nossos políticos apenas nos representam, não aprendemos nada. Absolutamente nada!

Recuso-me a participar de debates frívolos e mesquinhos de gente que se intitula intelectualizada e que vejo, nas ações, vivem em suas bolhas gritando por uma democracia cuja régua alcança somente o que lhes convém. Recuso-me  fazer parte de picuinhas vazias de ideias e cheinhas de adjetivos depreciativos onde, grande parte de quem os profere, sequer conhece a história do que acusam quem dirá o significado do que estão falando, pior, repetindo. 

Não é sobre políticos, é sobre ideias. É sobre nossa ética, sobre o que realmente norteia nossa moral e valores. É sobre sermos mais honestos com nós mesmos, sobre sermos menos vaidosos e admitirmos o nosso cinismo. E aí, podemos começar a enxergar com nossos próprios olhos e não sob as lentes do alheio, quem realmente está interessado em representar as nossas ideias. 

É fácil atacar quem pensa diferente, mas raramente esses conseguem usar do seu tempo para fazer algo verdadeiramente produtivo. O começo é sempre dentro. A mudança começa sempre numa escala menor. 

Enquanto tivermos políticos de estimação, enquanto estivermos somente atacando ou somente defendendo pessoas ao invés de estarmos colocando nossas ideias em prática como prioridade, enquanto estivermos olhando o diferente como se tudo soubéssemos sobre ele,  seremos nós os adestrados, seremos nós os governados ao invés de governantes.






quarta-feira, 9 de março de 2022

Dia Internacional da Mulher

 O protocolo de todo ano serve pra quê? Muda o quê? 

 A iludida Maravilha usa a sua capa repetida e, tola, subtrai forças ao invés de reconhecer que, juntos, somos inteiros. 

XX + XY.